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Curso sobre Dimensões Humanas da Gestão de Vida Silvestre

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Os problemas que a conservação da vida silvestre se propõe a resolver não são, em última análise, problemas com os animais, as plantas ou seus habitats, mas sim problemas com as pessoas. A resolução dos problemas, portanto, vai além do escopo das ciências biológicas e deve levar em conta também o que as pessoas envolvidas – os grupos de interesse - pensam e fazem.

Foi a partir dessa premissa que Silvio Marchini, doutor em conservação pela Universidade de Oxford e diretor da Escola da Amazônia, desenvolveu o curso “Dimensões Humanas da Gestão de Vida Silvestre”, ministrado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) em Piracicaba, entre os dias 22 e 24 de maio de 2013.

O curso abordou os caminhos para se incorporar à gestão de vida silvestre as chamadas Dimensões Humanas; uma abordagem que aplica as ciências sociais - economia, sociologia, psicologia, educação e comunicação - para identificar, entender, envolver e influenciar os grupos de interesse, visando o maior benefício possível tanto para a vida silvestre quanto para as próprias pessoas. O curso teve a duração de três dias e foi dividido em três blocos: bases conceituais, metodologia de pesquisa, e aplicações.

Primeiro do gênero no Brasil e aberto para estudantes de pós-graduação e profissionais das áreas relacionadas à conservação e ao manejo da vida silvestre, o curso contou com 34 participantes selecionados vindos de diferentes cidades de São Paulo, além de Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Brasília.

O curso foi uma realização do Grupo de Estudo e Pesquisa em Ecologia e Impactos Ambientais (GEPEIA/ESALQ/USP), do Departamento de Ciêncais Florestais e do Plano Diretor Socioambiental Participativo do Campus Luiz de Queiroz, ambos da ESALQ, e da Superintendência de Gestão Ambiental da USP, e teve apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) por meio do Centro Nacional de Conservação de Carnívoros Terrestres (CENAP), do Instituto Pró Carnívoros e do Sisbiota.

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Escola da Amazônia no Programa E-Cons

SPVS Sala de Imprensa
Notícias
07.05.2012

Iniciativa da SPVS junto com HSBC apoia pessoas que já desenvolvem projetos exemplares voltados à conservação da natureza em todos os biomas do Brasil

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A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e o banco HSBC decidiram expandir sua parceria que já ocorre desde 2007 e estão lançando um projeto pioneiro em conservação da biodiversidade. Denominado Programa E-CONS (Empreendedores da Conservação), a iniciativa tem a finalidade de apoiar lideranças que já realizam ações inovadoras de conservação da natureza em todos os biomas do Brasil. Aproximadamente R$ 1 milhão será investido em seis projetos, ao longo dos próximos três anos. “É um projeto inovador que aposta na potencialização das atividades de indivíduos que estamos chamando de empreendedores conservacionistas, responsáveis por ações diferenciadas e estratégicas de conservação da biodiversidade e que tenham grande potencial de gerar desdobramentos”, completa Clóvis Borges, diretor-executivo da SPVS.

A experiência prévia entre SPVS e HSBC resultou na conservação de 3,2 mil hectares de áreas com Floresta com Araucária no sul do Brasil e permitiu a busca de um novo desafio: atuar e repetir resultados consistentes em outros biomas, ampliando a iniciativa para todo território nacional. Do trabalho anterior, o Programa E-CONS herdou a metodologia de envolvimento de pessoas como chave para a geração de resultados concretos em favor da conservação da natureza. “Há pessoas no Brasil verdadeiramente interessadas em fazer conservação da natureza. Fazem disso um trabalho em defesa de uma causa de interesse coletivo e também como sua principal atividade profissional”, informa Borges. “São pessoas que exercem um trabalho de grande importância para o país e que precisam ser identificadas e apoiadas”, sentencia ele.

Na primeira fase do programa, serão apoiados projetos desenvolvidos pelo biólogo Jean Pierre Santos para proteção do logo-guará no Cerrado, um trabalho de educação ambiental na Amazônia pelo também biólogo Silvio Marchini, pela zootecnista Gláucia Seixas para proteção de ambientes naturais onde ocorre uma espécie de papagaio no Pantanal e pela proprietária de uma área natural em Curitiba, Terezinha Vareschi, que incentiva outros donos de áreas naturais em ambientes urbanos a seguirem seu exemplo para criação de reservas particulares em meio às cidades. Outros dois biólogos também serão apoiados. São eles Bianca Reinert e Weber Girão, que descobriram novas espécies de aves – respectivamente o bicudinho-do-brejo em área de Mata Atlântica e o soldadinho-do-araripe no bioma Caatinga – e fazem do trabalho de proteção dessas espécies um meio para conservação de seus ambientes.

O Programa E-CONS também está relacionado às metas de manutenção do patrimônio natural previstas por programas governamentais brasileiros e pela Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, sustentando uma melhor percepção sobre a relação entre a conservação da natureza, a qualidade de vida e a economia. “O HSBC apoia esta iniciativa, pois acredita que é preciso ir além das atividades de negócios tradicionais e por isso, busca implementar uma agenda pro-ativa e parcerias que promovam a sustentabilidade, afirma Cláudia Malschitzky, superintendente-executiva de Sustentabilidade do HSBC . “Além disso, acreditamos que esta iniciativa pode incentivar a participação de outras empresas que também estão preocupadas com a conservação da biodiversidade e que querem promover o desenvolvimento sustentável de baixo impacto ao meio ambiente”, completa a executiva.

“Esse modelo mostrou um dos caminhos possíveis para promover a proteção de espécies e ambientes ameaçados, bem como de toda sua importância social e econômica”, diz Borges, ao lembrar que a conservação de ambientes naturais gera benefícios essenciais para as pessoas e para as atividades econômicas, por meio dos chamados serviços ambientais - como a qualidade da água e do ar, a manutenção de solos, a polinização, novas descobertas (úteis para medicamentos e alimentos, por exemplo), segurança (por meio da manutenção de áreas naturais íntegras em encostas), energia, entre outros. “Por isso, nosso objetivo principal é estimular o incremento de trabalhos como o desenvolvido pelos E-CONS, porque são iniciativas com ampla capacidade de ampliar a geração de resultados e benefícios coletivos”, completa.

E-CONS

O Programa tem à frente a figura dos Empreendedores da Conservação, os E-CONS, pessoas transformadoras e comprometidas com a manutenção do patrimônio natural e, consequentemente, com todos os benefícios que a natureza gera para a sociedade e para as atividades econômicas. A partir das ações que realizam, os E-CONS apresentam uma enorme capacidade de gerar resultados mais amplos, justamente o ponto estratégico de abordagem escolhido pelo programa E-CONS para o apoio concedido, diferentemente de projetos usuais de financiamento de projetos.

“Eles foram selecionados a partir de entrevistas com ambientalistas e pesquisadores que trabalham com conservação da natureza no Brasil”, conta a bióloga Angela Kuczach da SPVS, que, após as indicações recebidas, foi a várias regiões do Brasil verificar como esses projetos se adequavam a critérios do Programa E-CONS. “Entre esses critérios estão o comprometimento de pessoas para geração de resultados efetivos em conservação da natureza e que tenham expectativas de expansão de suas ações, contribuindo para a realização de novas iniciativas que gerem mais áreas protegidas ou sirvam de instrumento para impulsionar outras ações de proteção da biodiversidade”, descreve a bióloga. Para o futuro, segundo ela, a ideia é que essa busca por E-CONS continue por meio da identificação de novos empreendedores e da sensibilização de empresas para apoiá-los. “Com uma metodologia inovadora e abrangente, que corresponde às necessidades de conservação da natureza e fortalecimento desse tema no Brasil e no mundo, o Programa poderá ser reproduzido em longo prazo em ampla escala, até que uma grande rede de E-CONS seja estabelecida”, projeta Angela.

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Manejo de fauna, manejo de gente

Por Silvio Marchini, publicado no Oeco no dia 14 de março de 2012

Onça parda (puma concolor) pega por armadilha fotográfica. Ela assusta e, por isso, é pouco popular. foto: ecotropica.org.br

Os problemas que a conservação e manejo da fauna silvestre se propõem a resolver não são, em última análise, problemas com a fauna e sim, problemas com as pessoas.

O processo de tomada de decisões acerca da conservação e manejo da nossa fauna silvestre tem tido como base dois preceitos fundamentais: a suficiência da biologia e a autoridade do especialista. Em outras palavras, assume-se que a contribuição exclusiva da biologia garanta as melhores decisões de conservação e manejo e que, consequentemente, tais decisões devam ser tomadas por especialistas em ciências biológicas (biólogos e também veterinários, agrônomos e engenheiros florestais), em virtude de seu treinamento e experiência nessa área.

A aplicação desses preceitos trouxe resultados expressivos. No entanto, a fauna silvestre continua ameaçada por atividades humanas e, agora com um fator complicante, as opiniões e interesses do público leigo acerca do assunto estão cada vez mais fortes e diversificados. À medida que a sociedade se segmenta em grupos com interesses cada vez maiores e mais variados (e eventualmente conflitantes!) em relação ao uso e conservação dos recursos naturais, o manejo da fauna silvestre deverá se beneficiar de uma base mais ampla de fundamentos, que contemple a necessidade de integração entre múltiplas disciplinas e o desejo de diferentes setores da sociedade de participar das decisões.

CLIQUE AQUI para ler o artigo na íntegra

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A onça pintada vai à escola

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Por Silvio Marchini, publicado em Oeco em 1 de fevereiro de 2012.

Crianças na sala de aula de uma escola rural na fronteira de desmatamento da Amazônia não costumam ser vistas como potenciais aliadas na conservação da biodiversidade. Elas ainda não tomam decisões sobre o uso dos recursos naturais. Isso quem faz são seus pais. Só o que normalmente se espera delas é que – algum dia – se tornem adultos que ajam de forma mais ambientalmente correta. Neste cenário, muitos educadores ambientais esperam que seus esforços em sala de aula no presente se traduzam em benefícios para a biodiversidade apenas na próxima geração de tomadores de decisão.

O Projeto Conviver Gente e Onças, no entanto, mostra que a educação pode trazer resultados imediatos. Ele foi desenvolvido em Alta Floresta, no Mato Grosso, e surgiu em resposta ao abate de onças pintadas, o que, juntamente com o desmatamento, é uma grave ameaça a esta espécie de nossa fauna que desperta interesse e emoções tanto em crianças quanto em adultos - da Amazônia rural aos grandes centros urbanos, é o primeiro animal que vem à cabeça quando se pensa em floresta. Além disso, todos têm algum sentimento por ela: admiração, fascínio, medo ou raiva, ou tudo isso ao mesmo tempo.

O projeto faz uma contribuição relevante para o tema da aprendizagem entre gerações, revelando o potencial das crianças como interlocutores entre os conservacionistas e as comunidades rurais na fronteira de desmatamento da Amazônia. Os resultados - cujos dados foram obtidos em um experimento científico rigorosamente elaborado e conduzido - sugerem que crianças podem transferir para seus pais certas mudanças de atitudes obtidas em sala de aula e, dessa forma, modificar a curto prazo os comportamentos que atualmente ameaçam a biodiversidade na Amazônia.

CLIQUE AQUI para ler o artigo na íntegra em Oeco.

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Pesquisa Social - Pessoas como Fontes de Informação em Ecologia e Conservação

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Oficina sobre “Conservação, Sustentabilidade e Comportamento Humano”

Trinta estudantes universitários e profissionais da área de conservação ambiental e sustentabilidade participaram da oficina sobre “Conservação, Sustentabilidade e Comportamento Humano” ministrada por Silvio Marchini durante o I Congresso Colombiano de Mastozoologia, realizado na cidade de Quibdó, na região do Chocó, Colômbia, entre os dias 19 e 23 de setembro de 2011.

A oficina teve 9 horas de duração, entre aulas expositivas e atividades práticas, e foi dividida em três partes. Na primeira foram abordadas as teorias para entender e prever o comportamento humano no contexto da conservação ambiental e da sustentabilidade. Na segunda parte os participantes foram expostos aos métodos das ciências sociais usados para coletar informação de relevância para o planejamento e avaliação de ações em educação e comunicação ambiental. Por fim, foram abordadas as técnicas de educação e comunicação para a mudança de comportamento em benefício do meio ambiente.

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Foto por Fredy Quintero

O ser humano afeta o meio ambiente única e exclusivamente por meio de suas ações, de seus comportamentos. Conhecimentos, opiniões e sentimentos, por si só, não têm nenhum impacto direto sobre o meio ambiente. Portanto, uma prioridade pra conservacao da biodiversidade e para a sustentabilidade deveria ser entender, prever e mudar o comportamento humano. Acontece que a conservacao da biodiversidade tem sido tradicionalmente o campo de trabalho de biólogos e outros profissionais das ciências naturais, que não são treinados para pesquisar e influenciar comportamentos humanos. Por outro lado, psicólogos, comunicadores, profissionais de marketing e propaganda e outros profissionais capazes de entender e influenciar comportamentos humanos nao têm tradicionalmente se envolvido com conservação.

O objetivo dessa oficina é diminuir a distância entre esses dois mundos, proporcionando treinamento em ciências sociais aos conservacionistas, incluindo educadores e comunicadores ambientais, e desenvolvendo uma base conceitual que integre as ciências comportamentais às aplicações em conservação ambiental e sustentabilidade.

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Participantes da oficina.

Após a oficina no Chocó, Silvio Marchini esteve em Medellín, onde proferiu a palestra “Problemáticas Ambientales y Comportamiento Humano” no auditório do jornal El Colombiano, em um evento realizado pelo jornal, por Área Metropolitana, Fundação Gaia e Fundação Wii. Depois da palestra, Silvio se reuniu com 30 representantes das agências de Educação Ambiental do governo metropolitano do Vale do Aburrá (do qual Medellín é a principal cidade) para tratar do tema da avaliação de impacto e indicadores de sucesso das ações de Educação Ambiental.


Entrevista com Silvio Marchini

Para mais informação sobre as oficinas de Conservação, Sustentabilidade e Comportamento Humano, entre em contato com Silvio Marchini, silvio@escoladaamazonia.org.

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Colégio Bandeirantes e Escola da Amazônia

Colégio Bandeirantes e Escola da Amazônia: 10 anos de parceria.
Obrigado pelo carinho de todos do Band.

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Oficina “Planejamento e Avaliação de Ações em Educação Ambiental”

Os coordenadores da Escola da Amazônia, Silvio Marchini e Edson Grandisoli, comandaram dentro do II Encontro Internacional de Educação aplicada à Conservação e Sustentabilidade no Zoológico de São Paulo, a oficina “Planejamento e Avaliação de Ações em Educação Ambiental“.

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A oficina abordou por meio de aulas expositivas e práticas conceitos e métodos fundamentais para o desenvolvimento de ações em Educação Ambiental.

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No primeiro dia de oficina, os participantes tiveram a oportunidade de compreender sobre a importância de conhecer o público por meio da utilização de conceitos das Ciências Sociais, mais especificamente da Psicologia Social.

No segundo dia de oficina, o foco foi nas etapas de realização de pesquisas formativas, na criação de campanhas em educação & comunicação e na etapa vital de como avaliar a efetividade dos projetos, ponto fraco da grande maioria dos projetos de Educação Ambiental.

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Para saber mais sobre esse curso e outros promovidos pela Escola da Amazônia, entre em contato com

Silvio Marchini - silvio@escoladaamazonia.org
Edson Grandisoli - edson@escoladaamazonia.org

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Onça-parda no centro de Campos do Jordão!!


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Educação para a Sustentabilidade

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por Edson Grandisoli

Publicado no site ENVOLVERDE28-07-2011

Como liberdade, justiça e democracia, sustentabilidade
não possui um significado comum a todos
.”
John Huckle – Education for Sustainability (2001).

O conceito

A palavra sustentabilidade tem sido utilizada nos últimos anos nos mais diferentes contextos e propósitos. Por esse fato, muitos autores têm afirmado que falar em sustentabilidade simplesmente perdeu o sentido, ou seja, se tornou apenas mais um jargão em discursos politicamente corretos.

Leonardo Boff, um dos participantes na elaboração da Carta da Terra, afirma que “se a sustentabilidade representa o lado mais objetivo, ambiental, econômico e social da gestão dos bens naturais e de sua distribuição, o cuidado denota mais seu lado subjetivo: as atitudes, os valores éticos e espirituais que acompanham todo esse processo, sem os quais a própria sustentabilidade não acontece ou não se garante a médio e longo prazos”.

As palavras de Boff trazem consigo uma das características centrais do conceito de sustentabilidade: a complexidade. O conceito moderno de sustentabilidade engloba, ao mesmo tempo, aspectos econômicos, sociais, ambientais, éticos, étnicos, políticos, culturais e comportamentais, os quais devem interagir de forma harmônica a fim de garantir a continuidade da vida no planeta, incluindo a nossa própria. Dessa forma, o conceito de sustentabilidade tornou-se a palavra de ordem – e a tábua de salvação – em quase todos os assuntos relacionados ao ser humano, seu ambiente, sua sociedade, sua economia, etc.

Dentro desse panorama, não é a toa que a palavra pode ter perdido seu significado original ao longo do tempo.

Entendendo sustentabilidade

A sustentabilidade tem ganhado espaço dentro da realidade de algumas poucas escolas no Brasil. As restrições do currículo atual, a falta de preparo específico e a grande amplitude do tema talvez sejam apenas alguns dos motivos por trás desse fato.

Na prática escolar, as possibilidades de trabalho com temas relacionados à sustentabilidade são quase infinitas. Mas afinal, como trabalhar com sustentabilidade na escola?

Movido por essa questão, em 2010, tive o privilégio de desenvolver, como consultor em conjunto com um grupo interdisciplinar de professores, um questionário com 40 questões (abertas e fechadas) sobre sustentabilidade, que foi aplicado a 113 estudantes do Ensino Fundamental II (6º a 9º anos) de uma grande escola paulistana. O objetivo do questionário foi investigar de forma mais consistente o que os jovens pensam e entendem sobre sustentabilidade e quais suas atitudes e comportamentos relacionados a ela. Considerei esse passo de investigação fundamental antes de iniciarmos qualquer tipo de intervenção em sala de aula ou fora dela.

Os resultados foram bastante animadores e gostaria de compartilhar alguns deles.

Na primeira seção do questionário, procuramos investigar como a sustentabilidade está presente no imaginário dos estudantes. Encontramos que:

•96% já ouviram falar em sustentabilidade;

•65% não estão inteiramente certos de seu significado;

•91% acreditam que todos deveriam agir de forma sustentável.

Logo de saída foi possível detectar uma aparente contradição relacionada à sustentabilidade. A grande maioria dos estudantes acredita que é importante agirmos de forma sustentável, mesmo sem saber exatamente o que é sustentabilidade. Ao mesmo tempo em que essa contradição parece negativa do ponto de vista conceitual, ela indica que o termo sustentabilidade está associado a algo positivo, que deve ser buscado e alcançado por todos.

Na segunda seção, procuramos investigar mais profundamente a compreensão dos estudantes relacionada ao conceito de sustentabilidade em si. Descobrimos que:

•71% acreditam que sustentabilidade tem como objetivo a preservação do meio ambiente e seus recursos naturais;

•Apenas um estudante apontou a si mesmo(a) como protagonista no processo de transformação do mundo em um lugar mais sustentável.

A forte associação entre sustentabilidade e preservação do meio ambiente não foi surpresa. Os melhores e mais divulgados exemplos de sustentabilidade sempre – ou na grande maioria das vezes – estão associados a uma vertente ambientalista/preservacionista/conservacionista, o que acaba resumindo o conceito de sustentabilidade a modos de melhorar a relação entre ser humano e natureza. Esse resultado vai ao encontro das ideias de Ricketts (2010), que afirma que historicamente o conceito de sustentabilidade nasceu de uma combinação de ideias e ideais do ambientalismo.

Por outro lado, apesar da visível preocupação com as questões ambientais presente no currículo escolar e documentos oficiais que norteiam nossa educação básica, as questões relacionadas à responsabilidade individual e cidadania ainda parecem distantes do pensamento e sentimento da esmagadora maioria dos estudantes avaliados. Somente um único estudante citou a si próprio(a) como responsável por tornar o mundo um lugar mais sustentável, ou seja, a responsabilidade e protagonismo está nas mãos de atores como o governo, as ONGs e os donos de indústrias, por exemplo. Esse distanciamento do papel de cidadão na busca pelo bem comum aponta, portanto, um caminho fundamental de trabalho com nossos estudantes.

Na terceira e quarta seções do questionário, avaliamos em conjunto atitudes e comportamentos dos estudantes por meio de afirmações que descrevem ações ligadas à sustentabilidade. Vale ressaltar que a grande maioria das respostas não apresentou diferenças estatisticamente significativas entre as séries analisadas. Avaliamos que:

•98% consideram a reciclagem como fundamental para a sustentabilidade;

•89% dos estudantes afirmam que sempre costumam reciclar no seu dia a dia;

•98% dos estudantes consideram que apagar a luz de cômodos onde não há ninguém é muito importante para a sustentabilidade;

•83% afirmam que sempre apagam a luz de cômodos vazios no seu dia a dia;

•89% consideram que comprar somente o essencial é muito importante para a sustentabilidade, porém, quanto mais velho o estudante avaliado, mais difícil se torna comprar apenas o essencial em seu dia a dia.

Questões como reciclagem, economia de água e luz parecem estar bem incorporadas ao dia a dia dos estudantes avaliados. Entretanto, quando esbarramos na questão do consumo, o cenário se altera sensivelmente.

Um caminho possível

Por muitos anos na minha carreira docente ouvi estudantes dizerem que “o fubá vem do bolo” e “o leite vem da caixinha”. Pode parecer engraçado na hora, mas essas afirmações acabam refletindo a desconexão dos jovens com a natureza.

De acordo com nossos resultados, o tema do consumo parece merecer destaque em projetos envolvendo o tema sustentabilidade, tanto por sua relevância na vida dos estudantes, como por permitir a construção de projetos que efetivamente abordem a complexidade envolvida na construção de um mundo mais sustentável.

Vamos considerar ainda mais três motivos que justificam esse enfoque:

•Segundo o IBGE (2010), 84% da população brasileira é urbana e, em geral, alheia ao impacto ambiental, social e econômico de seu consumo;

•Segundo o Ibope, mais de R$ 300 milhões são investidos em propaganda para estimular o consumo entre os jovens por ano;

•Consumo é um tema naturalmente interdisciplinar, promovendo a participação de diferentes áreas do conhecimento e estimulando a prática do ensino por projetos, que tendem a ser mais desafiadores e interessantes para estudantes e professores.

Em resumo, precisamos ensinar aos nossos jovens desde muito cedo que todo consumo gera um impacto econômico, social e ambiental. E, mais importante que isso, que TER não é a mesma coisa que SER.

Como fonte de inspiração, sugiro o documentário Criança, a alma do negócio, dirigido por Estela Renner.

O futuro

As gerações futuras devem ser educadas sobre como colaborar com a construção de um mundo mais sustentável desde agora, para que se tornem criticamente competentes e capazes de tomar decisões positivas do ponto de vista individual e coletivo.

Acredito que para iniciarmos de verdade uma Educação para a Sustentabilidade, um dos caminhos apontados pela nossa pesquisa é o de procurar explorar a complexidade de temas menores e ao mesmo tempo significativos para os estudantes e professores envolvidos.
Aparentemente, tratando-se de Educação para a Sustentabilidade, menos é mais.

O caminho trilhado no Reino Unido, na Escócia, no Canadá, nos Estados Unidos e na Austrália por meio das green schools já é antigo e conta com inúmeras investigações e experiências de sucesso, que vão desde a adaptação do currículo em função do tema sustentabilidade até a capacitação de professores e rearranjo completo da arquitetura escolar.

No Brasil, a história da sustentabilidade ligada à educação pode ser ainda considerada experimental – como o que acabei de apresentar – e conta com praticamente nenhum apoio nos documentos oficiais da educação básica.

Enquanto isso, vale novamente a coragem, a criatividade e a vontade de construir um futuro melhor para todos, marca registrada dos educadores brasileiros.

Para finalizar, gostaria de citar uma vez mais John Huckle: “… o papel chave da Educação para a Sustentabilidade é o de ajudar as pessoas a refletirem e agirem […] e vislumbrarem futuros alternativos de uma forma mais consciente e democrática”.

Referências

BOFF, L. Sustentabilidade e cuidado: um caminho a seguir. Disponível em http://pousio.blogspot.com/2011/06/leonardo-boff-sustentabilidade-e.html. Consultado em 21-07-2011.

HUCKLE, J. & STERLING, S. Education for Sustainability. Earthscan Publications Limited: London, 2001.

RICKETTS, G. M. The roots of sustainability, Acad. Quest. 23, 2010, pp. 20-53.

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Educação ou comunicação para a conservação e sustentabilidade?

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Extraído do artigo Educação ou Comunicação Persuasiva em Conservação?, de Silvio Marchini (Oeco, 11 de agosto de 2011).

“Se de um lado a educação visa promover, a longo prazo, uma ética de conservação que se traduza em um modo de vida ambientalmente responsável, de outro a comunicação para a conservação tem como objetivo modificar, a curto prazo, comportamentos específicos”

“Por ter um foco mais estreito, a comunicação é mais efetiva que a educação em mudar comportamentos específicos. Uma prova disso é o padrão de consumo dos jovens: são principalmente os profissionais de marketing (os grandes especialistas em mudança de comportamento) que, por meio da propaganda, definem – de forma específica – o que e quanto os jovens vão comprar, apesar das repetidas lições dos educadores ambientais sobre como o consumo – de forma geral – ameaça o meio ambiente. Por outro lado, o simples termo “modificar comportamento” pode causar desconforto em alguns círculos. O uso de métodos persuasivos e a comunicação parcial dos fatos, tipicamente usado em propaganda para influenciar comportamentos, pode ser interpretado como doutrinamento ou, no mínimo, como uma indesejável imposição de valores. Isso suscita questionamentos acerca da legitimidade dessa abordagem, especialmente entre os educadores acostumados a pensar na pedagogia como ferramenta de libertação e de autonomia.”

“A conservação da biodiversidade, no entanto, é uma disciplina que tem seus valores próprios. Enquanto a ecologia se alinha com a noção tradicional de que “ciência é neutra” e trata estritamente de desvendar a verdade por trás do mundo natural sem fazer juízo de valor, a conservação, por outro lado, nasceu em resposta a um problema – a perda de biodiversidade – e tem como missão resolvê-lo. Enquanto em ecologia não existe o bem e o mal, nem melhor e pior, a conservação possui uma ética particular, sintetizada por Aldo Leopold em A Ética da Terra (no clássico A Sand County Almanac) como “uma coisa está certa quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica; está errada quando tem a tendência inversa”. Errado em conservação é o comportamento humano que ameaça a biodiversidade. Portanto, o papel do educador e comunicador conservacionista é, por definição, usar a educação e a comunicação para mudar o comportamento humano em benefício da biodiversidade.”

CLIQUE AQUI para ler o artigo na íntegra.

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Floresta faz a diferença

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Ecólogo da Escola da Amazônia - Edson Grandisoli - é entrevistado pelo TCE na TV

Tribunal de Contas do Estado de Sergipe

O programa ´TCE na TV´ entrevistou o professor da Escola da Amazônia e instrutor na área de educação ambiental, Edson Grandisoli. O ecólogo esteve em Aracaju para ministrar uma palestra no evento de lançamento do Projeto ‘TCE Sustentável’, que prevê ações de preservação da natureza no ambiente de trabalho da Corte de Contas de Sergipe.

No bate papo, o professor falou sobre temas como a relação conturbada entre os humanos e o meio ambiente, a necessidade de uma mudança de comportamento e o que vislumbra para as próximas gerações. Confira abaixo alguns trechos da entrevista que deverá ir ao ar na íntegra próxima sexta-feira, 08 (na Aperipê TV, às 12h e na TV Alese, às 18h).

TCE na TV - Qual a relevância de se propagar iniciativas de consciência ambiental?
Edson Grandisoli - A crise ambiental já está bem estabelecida e identificada em muitos pontos dentro da sociedade em que vivemos. O distanciamento imposto pelos humanos perante a natureza é um dos principais motivos desta relação conturbada. As pessoas não têm muita consciência de como a vida urbana causa grandes impactos nos ambientes naturais. Então, é vital que este tema sempre seja abordado, mostrando que ainda existe uma ligação muito forte entre o humano e a natureza, principalmente no tocante à relação de consumo. É essencial sugerir uma mudança de hábitos, não apenas tomando como base a economicidade financeira, mas por uma questão de valores e de preservar o meio ambiente para as futuras gerações.

TCE na TV – Como os servidores do TCE/SE podem se engajar neste movimento?
Edson Grandisoli – Dentro do ambiente de trabalho existem várias maneiras de preservar a natureza. Primeiramente é preciso ter consciência e compartilhar os valores de preservação, afinal, cada um tem que fazer sua parte. E mesmo que os seus colegas de trabalho ainda não estejam fazendo a parte que os cabe, um comportamento consciente servirá de exemplo. Economizar copos descartáveis, imprimir apenas quando for realmente necessário, desligar computadores e luzes ao término do expediente, são atitudes essenciais para contribuir com a preservação do planeta.

TCE na TV – E que novidades o senhor traz das ações realizadas na Amazônia?
Edson Grandisoli – Eu desenvolvo um trabalho de educação ambiental com as comunidades regionais desde 2002. A Amazônia para mim é uma grande lição de vida. Acredito que a floresta tem uma bela história para contar ao mundo. Infelizmente grande parte das notícias veiculadas sobre a Amazônia abordam temáticas negativas, isso também tem que mudar.

TCE na TV – Na sua opinião ainda falta muito para que a população brasileira chegue a um patamar elevado de consciência ambiental?
Edson Grandisoli – Creio que falta muito não só para o Brasil, mas para todo o mundo. As iniciativas de preservação estão nascendo, os novos meios de comunicação estão ajudando bastante a difundir estes ideais, contudo, as ações ainda são muito pontuais. É preciso usar estas ferramentas e transformar o conhecimento em atitudes.

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Escola da Amazônia: um Laboratório de Educação Ambiental

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Alunos locais e visitantes em atividade conjunta- Crédito: Edson Grandisoli|Escola da Amazônia

Publicado no O Eco Amazônia no dia 6 de julho de 2011

Por Silvio Marchini

“O maior e mais deprimente problema de conservação não é a destruição do habitat ou a sobreexploração, mas a indiferença humana diante desses problemas”.

Esse argumento do professor da Universidade de Cambridge Andrew Balmford é particularmente pertinente na relação entre os brasileiros e a floresta amazônica. Para a maioria dos brasileiros, a Amazônia é um lugar exótico e distante, com o qual tem apenas um tênue laço de afetividade e responsabilidade. Embora a área da Amazônia corresponda a cerca de 61 porcento do território nacional, mais de 80 porcento dos brasileiros vivem fora da região e simplesmente longe demais para se importar com as queimadas, motosserras e correntões que destroem a floresta. Por outro lado, aqueles que vivem na fronteira agrícola da Amazônia, diante dos mais altos índices de desmatamento tropical no mundo, são tipicamente migrantes e filhos de migrantes, que precisam de renda, mas têm pouco conhecimento sobre como utilizar os recursos que a floresta oferece. Compartilham a noção de que a única maneira pela qual podem ganhar a vida é criando gado. Para eles, a floresta vale mais depois de derrubada e convertida em pasto.

De acordo com essa visão, o futuro sustentável da Amazônia vai exigir a disseminação de conhecimentos sobre a floresta - seus usos, sua importância e seu estado de conservação – e, acima de tudo, uma mudança nos valores atribuídos a ela. As pessoas deverão se importar com a floresta, tanto por causa dos produtos e serviços que ela oferece, quanto por razões éticas e estéticas, culturais e sentimentais. Razão e emoção deverão formar as bases de uma relação responsável com a floresta. Ora, conhecimentos e valores são adquiridos por meio da experiência e, sobretudo, por meio da educação. Portanto, a crise ambiental na Amazônia é, em última análise, também uma crise da educação. Em resposta a isso, criamos a Escola da Amazônia, cujo objetivo é desenvolver e testar abordagens de educação para fomentar entre os brasileiros – principalmente os mais jovens – o interesse, o apego e, consequentemente, o respeito pela floresta.

A história

Maratona de Nova York, 1998. No quilômetro 25 de um percurso de 42 quilômetros, uma repentina e completa fratura por estresse do meu fêmur direito pôs um fim no meu plano de completar a mais badalada corrida de rua do mundo. Caí em estado de choque sobre o asfalto gelado sem ter a menor ideia do que havia acontecido e menos ainda das implicações que aquilo teria sobre minha vida. Três cirurgias nos quatro meses subsequentes, uma severa infecção hospitalar e nove meses sem andar puseram também um fim prematuro no meu doutorado em ecologia, já que fazer o trabalho de campo nas reservas do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais usando muletas seria impossível. Numa guinada do destino, encerrava-se minha curta carreira de aspirante a ecólogo de florestas tropicais, mas minha vida profissional tomava um novo rumo que culminaria na criação da Escola da Amazônia.

Enquanto me recuperava da fratura, aceitei o convite para assumir o cargo de diretor acadêmico do programa Manejo de Recursos Naturais e Ecologia Humana na Amazônia, da School for International Training (SIT). A SIT oferece programas de estudos em diversos países – os Semestres Letivos no Exterior – que proporcionam a universitários americanos uma oportunidade rara de imersão em temas específicos. O programa brasileiro tinha sua sede em Belém do Pará, onde os alunos passavam as cinco primeiras semanas morando em casas de família enquanto frequentavam aulas de português e assistiam palestras de representantes das instituições locais dedicadas à questão socioambiental na Amazônia, tais como Museu Emílio Goeldi, Imazon e Funai. Na etapa seguinte, passávamos um mês inteiro viajando e conhecendo um pouco de tudo que é relevante para a conservação e o desenvolvimento na região, desde as hidrelétricas de Tucuruí e Balbina e as madeireiras de Paragominas, mineração em Carajás, Serra do Navio e Rio Trombetas, plantações em Jari e Tomé-Açú, pecuária em Marajó e pesca nas reentrâncias paraenses, até os trabalhos do Projeto Saúde e Alegria no rio Tapajós e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Mamirauá nas várzeas do rio Solimões. Na última etapa do programa, os alunos tinham um mês inteiro para desenvolver seu próprio projeto de pesquisa, sob minha supervisão.

A experiência era fantástica, mas me incomodava o fato de que apenas alguns poucos estudantes americanos tinham o privilégio de conhecer a Amazônia brasileira de modo tão completo e profundo. A maioria daqueles estudantes não se envolvia com o tema da conservação quando voltava para suas vidas nos Estados Unidos e praticamente todos perdiam o vínculo com a Amazônia. Decidi então buscar uma maneira de oferecer aquela oportunidade a estudantes brasileiros também. Foi com essa motivação que abri, em 2000, a firma Amazonarium, cuja missão era incentivar e facilitar a vinda de estudantes para a Amazônia, oferecendo excursões e oportunidades de imersão cultural nos moldes da SIT. Naquele mesmo ano, por meio do Amazonarium, conheci a empresária e ambientalista Vitória da Riva Carvalho, a Dona Vitória, proprietária do Hotel de Selva Cristalino (Cristalino Jungle Lodge) e presidente da Fundação Ecológica Cristalino (FEC), e com ela estabeleci uma colaboração para levar estudantes para Alta Floresta, na fronteira agrícola da Amazônia.

Em 2002, Dona Vitória e eu demos à nossa colaboração o nome de Escola da Amazônia. No ano seguinte, realizamos nossa primeira oficina com jovens de escolas públicas de Alta Floresta. Um pouco mais tarde, Edson Grandisoli, que por felicidade era meu melhor amigo dos tempos da graduação na USP, entrou para o time e passou a trazer para a Escola da Amazônia grupos de jovens do ensino médio dos colégios particulares de São Paulo onde lecionava. Em 2005, a Escola da Amazônia foi incorporada à FEC e passou a receber apoio de patrocinadores, graças ao empenho do seu então diretor executivo, Renato Farias. No mesmo ano, voltei à academia, com um doutorado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, para investigar os fatores cognitivos, afetivos e sociais que determinam o comportamento humano de matar grandes felinos e como usar educação e comunicação – como usar a Escola da Amazônia – para influenciar aqueles fatores e aumentar a tolerância humana às onças. Nos anos seguintes, a Escola da Amazônia se consolidaria como um laboratório de técnicas e estratégias em educação para a conservação.

Os objetivos

Nesses 8 anos de experimentações, a Escola da Amazônia explorou os meios para se alcançar fundamentalmente três objetivos: (i) identificar, mensurar e monitorar os fatores que determinam o comportamento das pessoas em relação à floresta e sua biodiversidade, (ii) influenciar tal comportamento por meio da educação, de modo a torná-lo mais compatível com a conservação, e (iii) desenvolver um modelo de educação para a conservação que seja sustentável dos pontos de vista institucional e financeiro.

Entender o comportamento humano em relação ao mundo natural deveria ser o primeiro passo de qualquer programa de educação para a conservação. As principais ameaças à biodiversidade - destruição de habitat, sobreexploração, introdução de espécies exóticas, e poluição - são resultado direto do comportamento humano. Ao identificar e mensurar os fatores pessoais e sociais que determinam um comportamento de interesse, o educador conservacionista pode escolher intervenções que abordem especificamente os fatores mais relevantes, elaborando estratégias mais efetivas e eficientes de mudança de comportamento. A mensuração desses fatores permite também que o educador monitore as mudanças decorrentes de suas intervenções, avalie o impacto da educação e, em última análise, demonstre o sucesso de seu trabalho. Apesar da importância dessas avaliações, são raros os projetos de educação ambiental que fazem uso delas. Educação para a conservação tem sido tradicionalmente um campo de trabalho de biólogos e outros profissionais das ciências naturais cuja formação acadêmica não inclui as teorias e métodos das ciências sociais aplicados ao estudo e à mudança do comportamento humano.

Diversas atividades da Escola da Amazônia tiveram como ponto de partida os conhecimentos, percepções e valores do público-alvo, avaliados de forma qualitativa e quantitativa por meio de métodos de pesquisa em ciências sociais adaptados às peculiaridades locais. Questionários, entrevistas individuais, grupos focais e mapas de conceitos são exemplos de tais métodos. Construímos escalas para quantificar as variáveis de interesse e fizemos avaliações antes e depois das intervenções de modo a mensurar seu impacto sobre os participantes. O melhor exemplo dessa abordagem entre as atividades da Escola da Amazônia foi o Projeto Gente e Onças, tema do meu doutorado.

As principais abordagens de educação experimentadas na Escola da Amazônia são aquelas que priorizam a aprendizagem ativa, na qual os alunos constroem seus próprios conceitos sobre as informações que adquirem explorando a floresta. Os alunos são incentivados a compartilhar e discutir suas descobertas e ideias, generalizando do local para o global. Dessa forma, se aproximam da compreensão de sua conexão com a floresta; de como afetam e são afetados pela Amazônia.

Nas oficinas Um Dia na Floresta, atividades lúdicas foram desenvolvidas para despertar e fortalecer em crianças laços afetivos com a floresta. Ironicamente, uma a cada cinco crianças naquela parte da fronteira agrícola da Amazônia nunca pôs os pés na floresta! O programa Práticas Alternativas teve como objetivo estimular entre jovens do meio rural o interesse por atividades econômicas que não implicam na derrubada da floresta, entre elas o ecoturismo. O projeto Macaco-Aranha-da-Cara-Branca investigou o potencial do carismático primata, endêmico da região, como espécie-bandeira para a proteção do Parque Estadual do Cristalino. No projeto Gente e Onças, palestras e discussões em sala de aula e uma variedade de ferramentas de comunicação, entre elas cartazes, oficinas de desenho, teatro, livros de atividades e um guia para produtores rurais (Guia de Convivência Gente e Onças) foram desenvolvidos para aumentar a tolerância das pessoas aos grandes felinos. Nos Workshops sobre Desenvolvimento Socioeconômico e Conservação da Biodiversidade, alunos visitantes de alguns dos mais influentes colégios particulares de São Paulo – prováveis futuros tomadores de decisão – são expostos à realidade da fronteira do desmatamento, discutem as oportunidades de integração entre desenvolvimento e conservação na região, e refletem sobre sua responsabilidade sobre o destino da Amazônia, tanto como cidadãos quanto como futuros profissionais.

Educação para a conservação leva tempo para causar o impacto desejado. Muitos projetos de educação ambiental são encerrados por falta de apoio institucional e financeiro antes de cumprirem plenamente sua missão. Isso se constitui em desperdício de recursos e contribui para a noção de que a educação ambiental não é efetiva para fins de conservação. Educação ambiental, combinada com incentivos legais e econômicos e participação comunitária, pode sim ser efetiva, porém a longo prazo. É vital, portanto, que ela seja sustentável institucional e financeiramente.

A Escola da Amazônia testou mecanismos de sustentabilidade para a educação ambiental. Em sua colaboração com as escolas locais, envolveu diretores e professores e propôs a criação de um Grupo de Trabalho em Educação para a Conservação, composto por representantes das instituições locais competentes, incluindo as secretarias de educação e de meio ambiente, como um modo de legitimizar suas ações. Sua associação com um empreendimento turístico privado nos forneceu insights sobre as oportunidades e sinergias na integração entre educação ambiental e ecoturismo; a educação se beneficia da infraestrutura do turismo enquanto agrega valor ao empreendimento na medida que a consciência socioambiental cresce entre os turistas. Além disso, turistas podem contribuir diretamente por meio de “taxas de conservação”, da compra de produtos do projeto tais como camisetas, adesivos e publicações, e da divulgação do projeto através das redes sociais.

No programa Escolas Irmãs, fomentamos a cooperação entre escolas públicas rurais locais e colégios particulares visitantes, com benefícios acadêmicos para ambos os lados e benefícios materiais para a escola local, já que a cooperação envolvia a doação de material escolar pelo colégio visitante e parte da renda gerada pela visita era usada para subsidiar a participação dos alunos da escola local. Por esse esforço em desenvolver um modelo sustentável de educação ambiental, diminuindo a distância geográfica e cultural entre classes sociais num país de desigualdades como o nosso, a Escola da Amazônia recebeu o Whitley Award 2007. O prêmio é considerado o Oscar da conservação na Inglaterra e foi recebido das mãos da Princesa Anne em Londres.

As realizações e os próximos passos

A Escola da Amazônia avaliou mais de 2000 estudantes de escolas locais e de grupos visitantes e envolveu em seus experimentos aproximadamente 1500 crianças e jovens e 50 professores de 15 escolas públicas locais, além de mais de 300 jovens e 25 professores de 5 colégios particulares de São Paulo e 2 universidades estrangeiras. Nossos resultados têm sido apresentados em congressos e outros eventos e publicados nas mídias popular e científica. Ainda a fim de compartilhar com outros educadores conservacionistas as lições aprendidas, lançamos no final de 2010, no Zoo de São Paulo, o curso Planejamento, Implementação e Avaliação de Ações em Educação Ambiental.

Como é comum na pesquisa científica, algumas das questões respondidas ao longo do caminho suscitaram novas questões. Entre as próximas questões a serem abordadas pela Escola da Amazônia, as mais estimulantes são as referentes à replicabilidade do projeto. Estamos buscando oportunidades de testar a aplicabilidade de algumas de nossas abordagens em outras partes do Arco do Desmatamento e da Amazônia como um todo, nos outros biomas brasileiros e em diferentes contextos institucionais, com interesse especial nos contextos empresariais e governamentais. Esperamos assim contribuir para que os brasileiros assumam seu papel na conservação das florestas e da biodiversidade excepcional que nosso país abriga.

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Melhorar o relacionamento entre o homem e a natureza

Por Mari Fonseca, TEDx Amazônia e Webcitizen

Silvio Machini é zoólogo, criador da Escola da Amazônia e militante na luta para a conservação da biodiversidade. Para ele, um dos passos mais importantes dessa causa é melhorar o relacionamento entre o homem e natureza. Nós somos o principal desafio a ser estudado e analisado quando se trata da existência de várias outras espécies.

Os biólogos e pesquisadores da biodiversidade não estão habituados a entender de comportamento humano. Por outro lado, comunicólogos, sociólogos e psicólogos não estão muitas vezes envolvidos com a causa da conservação. Juntar essas áreas de conhecimento é o trabalho que Silvio vem desenvolvendo: “É preciso ter uma abordagem mais completa de Conservação da Biodiversidade, uma abordagem que tenha como ponto de partida o comportamento humano e que investigue os fatores - não somente os legais e econômicos, mas também os cognitivos, afetivos e sociais - que determinam a maneira como nos comportamentos acerca do mundo vivo“.

Sua talk mostra seus estudos sobre a onça-pintada e o relacionamento do homens com esse símbolo nacional que povoa o imaginário, as lendas e histórias contadas pelos brasileiros.

Silvio lembra com carinho da sua participação no TEDxAM: “Foi uma experiência surreal. A mistura do Rio Negro com o público interessado e interessante me impressionou de maneira profunda”. De lá para cá, ele manteve contato com a palestrante Larissa Oliveira para colaboração em projetos que estudam os conflitos entre gente e carnívoros e ainda com participante Karina Miotto para uma parceria na produção do documentário “O que é a Amazônia”.

A Escola da Amazônia também lançou na Fundação Zoológico de São Paulo um curso para conservacionistas que aborda as teorias e práticas das ciências sociais usadas para entender e influenciar o público. E por fim, acaba de sair do forno o livro do Silvio, “Predadores Silvestres e Animais Domésticos: Um Guia Prático de Convivência”, em co-autoria com Sandra Cavalcanti e Rogério Cunha de Paula, pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio, Ministério do Meio Ambiente).

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