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O brasileiro e as florestas

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Foto de Edson Grandisoli

Publicado no Oeco Amaz√īnia no dia 24 de mar√ßo de 2011

Por Silvio Marchini

O Brasil √© o pa√≠s das florestas. Com cinco milh√Ķes de quil√īmetros quadrados de cobertura florestal, concentrados na Mata Atl√Ęntica e principalmente na Amaz√īnia, o Brasil possui a maior extens√£o de matas tropicais do planeta. Al√©m de serem vastas, nossas florestas abrigam uma biodiversidade excepcional. Em apenas um hectare de Mata Atl√Ęntica √© poss√≠vel encontrar mais de 450 esp√©cies de √°rvores; um recorde mundial. Nada mais natural que o Brasil seja o √ļnico pa√≠s no mundo cujo nome vem de uma √°rvore: o pau-brasil (madeira com cor de brasa). Mas isso n√£o quer dizer o brasileiro seja um amante incondicional de suas √°rvores e florestas. O Brasil √© tamb√©m o pa√≠s do desflorestamento. A Mata Atl√Ęntica foi reduzida a 8% da sua cobertura original e √© hoje uma das florestas mais amea√ßada do mundo. Na Amaz√īnia, uma √°rea de floresta equivalente a tr√™s vezes o tamanho do estado de S√£o Paulo foi convertida em pasto ou planta√ß√£o nos √ļltimos 40 anos.

Mudan√ßas clim√°ticas, grandes obras de infraestrutura e um projeto de lei que altera o c√≥digo florestal amea√ßam dar novo impulso √† destrui√ß√£o das florestas. Herdeiros das maiores e mais diversas matas tropicais do planeta, muitos brasileiros ainda assistem indiferentes ao desaparecimento de seu mais valioso patrim√īnio natural. Enquanto os esfor√ßos para conter o desmatamento se concentram em medidas legais e econ√īmicas, o elemento humano ‚Äď o indiv√≠duo ‚Äď e as raz√Ķes por tr√°s de seu comportamento de derrubar a floresta, proteg√™-la, ou assistir indiferente √† sua destrui√ß√£o, tem sido ignorado nas pol√≠ticas de conserva√ß√£o e de desenvolvimento.

A maneira como o brasileiro se relaciona com as florestas passou a ser uma preocupa√ß√£o dentro e fora do pa√≠s a partir de 1988, depois que imagens de sat√©lite revelaram pela primeira vez a magnitude do desmatamento na Amaz√īnia. No mesmo ano, a not√≠cia da morte do seringueiro Chico Mendes contribuiu para colocar de vez a floresta amaz√īnica - e seu algoz, o brasileiro - no centro das aten√ß√Ķes da comunidade ambientalista. As autoridades brasileiras reagiram criando √°reas protegidas. Desde 1992, foram criadas mais de 80 unidades de conserva√ß√£o na Amaz√īnia. Governo, empresas e sociedade civil buscaram tamb√©m desenvolver mecanismos econ√īmicos para proteger a floresta. Do incentivo ao extrativismo, manejo florestal e ecoturismo ao pagamento por servi√ßos ecol√≥gicos e a grande aposta atual no REDD, a l√≥gica por tr√°s desses mecanismos financeiros e de mercado √© agregar valor monet√°rio √† floresta, fazendo com que ela valha mais em p√© do que derrubada.

Por√©m, a vis√£o de que a ra√≠z dos problemas ambientais est√°, em √ļltima an√°lise, no comportamento humano, e a crescente evid√™ncia de que o comportamento humano n√£o √© determinado apenas por fatores contextuais tais como as leis e o dinheiro, mas tamb√©m por fatores individuais, sugerem que a prote√ß√£o das florestas tem que levar em conta tamb√©m as dimens√Ķes humanas da rela√ß√£o homem-floresta. Precisamos entender o que o brasileiro pensa e sente em rela√ß√£o √†s florestas se quisermos mudar de forma duradoura seu comportamento acerca delas. O comportamento humano, por√©m, √© um fen√īmeno complexo e deve ser examinado em diferentes n√≠veis.

Como entender a relação

Em seu n√≠vel mais fundamental e universal, nossa resposta comportamental ao ambiente foi moldada pela evolu√ß√£o. Cada esp√©cie de animal tem seu ambiente preferido, onde suas adapta√ß√Ķes lhe permitem prosperar. De acordo com a Hip√≥tese da Savana, nossos ancestrais que viveram nas plan√≠cies da √Āfrica teriam desenvolvido uma prefer√™ncia inata por paisagens abertas e com √°rvores esparsas, onde era mais f√°cil coletar vegetais e avistar e seguir os bandos de ungulados de grande porte que lhes serviam de ca√ßa. Essa prefer√™ncia ainda estaria presente no homem moderno e evid√™ncias disso v√£o desde a preval√™ncia desse tipo de paisagem em pinturas cl√°ssicas e parques urbanos at√© o resultado dos testes em que pessoas de diversas partes do mundo escolheram a paisagem mais atraente entre fotos de savanas com √°rvores, campos limpos e florestas fechadas. Segundo essa vis√£o, somos animais da savana.

N√£o somos uma esp√©cie florestal. Claro que alguns povos se estabeleceram em ambientes florestais, mas usando a floresta apenas como fonte de alimento e de outros recursos, preferindo construir suas moradias e fazer suas refei√ß√Ķes e rituais em terreiros a c√©u aberto, como faz a maioria dos √≠ndios brasileiros. S√£o poucos os povos que vivem permanentemente debaixo do dossel fechado da floresta e, como mostra Jared Diamond em Armas, Germes e A√ßo, o estilo de vida coletor-ca√ßador dos leg√≠timos povos da floresta os condena a uma dieta pobre em energia e, em √ļltima an√°lise, a viver em grupos pequenos e incapazes de se desenvolver tecnologicamente (a floresta √© incompat√≠vel com as duas inven√ß√Ķes que levaram ao surgimento das civiliza√ß√Ķes: agricultura e cria√ß√£o de animais dom√©sticos). Haveria, portanto, um fundamento biol√≥gico para o comportamento humano de evitar a floresta, e esse impulso ancestral talvez fosse a base para nossa rela√ß√£o predat√≥ria com ela.

Por outro lado, a Hip√≥tese da Biofilia prop√Ķe que a evolu√ß√£o teria selecionado no ser humano um sentimento inato de afinidade com o mundo vivo. Esse sentimento teria estimulado nossos ancestrais a entender os riscos e oportunidades em seu ambiente e, desse modo, contribu√≠do para sua sobreviv√™ncia. A quinta-ess√™ncia da diversidade e sofistica√ß√£o no mundo vivo √© encontrada na floresta tropical e, portanto, esse tipo de ambiente exerceria sobre n√≥s uma atra√ß√£o instintiva especial.

A maioria dos pesquisadores concorda, no entanto, que a maior parte da varia√ß√£o no comportamento humano √© resultado do que aprendemos. S√£o nossos conhecimentos e cren√ßas que determinam mais diretamente as nossas a√ß√Ķes. Povos ind√≠genas e popula√ß√Ķes tradicionais acumularam atrav√©s dos tempos um profundo conhecimento sobre os recursos naturais das florestas onde vivem que lhes permite tirar sustento da floresta sem derrub√°-la. Eles t√™m sido o principal alvo de estudos antropol√≥gicos sobre a rela√ß√£o homem-floresta. No entanto, os atores mais diretamente relacionados com o desmatamento no Brasil t√™m sido os migrantes na fronteira agr√≠cola da Amaz√īnia. S√£o na maioria produtores rurais oriundos de regi√Ķes onde h√° muito n√£o existem florestas. Eles precisam de renda, mas t√™m pouco conhecimento sobre como utilizar os recursos que a floresta oferece. Acreditam que a √ļnica maneira pela qual podem ganhar a vida √© criando gado.

Diferente do que acontece com as popula√ß√Ķes tradicionais, a produ√ß√£o na fronteira agr√≠cola da Amaz√īnia est√° vinculada aos mercados. A demanda por soja, carne e madeira acelera a destrui√ß√£o da floresta. S√£o portanto os consumidores que, em √ļltima an√°lise, empurram adiante a fronteira do desmatamento. O consumidor brasileiro sabe pouco sobre a floresta amaz√īnica e seus problemas socioambientais. A maioria dos brasileiros mora em cidades fora da Amaz√īnia, desconhece a origem dos produtos que consome, e acredita que a Amaz√īnia n√£o passa de um lugar distante sobre o qual n√£o tem nenhum impacto ou responsabilidade.

Nossas a√ß√Ķes n√£o s√£o guiadas somente pela racionalidade dos conhecimentos e cren√ßas. Somos movidos tamb√©m pela emo√ß√£o. Medo, raiva e amor s√£o exemplos de sentimentos que influenciam nossa rela√ß√£o com o mundo natural. O medo de cobras, aranhas e outros animais da floresta explica, em parte, a falta de √°rvores nas proximidades de habita√ß√Ķes humanas. Por outro lado, √© por gostarmos de animais, plantas e paisagens naturais que conservamos as florestas. Parques Nacionais, que formam as maiores extens√Ķes de florestas protegidas na Amaz√īnia, s√£o criados levando em conta, entre outros crit√©rios, a beleza c√™nica, e aprecia√ß√£o est√©tica √© um fen√īmeno afetivo. A falta de emo√ß√£o, por sua vez, resulta em indiferen√ßa.

Andrew Balmford diz que ‚Äúo mais deprimente problema de conserva√ß√£o n√£o √© a destrui√ß√£o do habitat ou a extra√ß√£o predat√≥ria, mas a indiferen√ßa humana diante desses problemas‚ÄĚ. Sem v√≠nculos afetivos com a floresta, o brasileiro m√©dio n√£o se importa que hidrel√©tricas e asfaltamento de rodovias possam impulsionar novamente o desmatamento na Amaz√īnia, que a madeira que compra n√£o seja certificada, ou que suas emiss√Ķes de carbono, mesmo feitas √† dist√Ęncia, possam contribuir com a sequ√™ncia de eventos que culmina na savaniza√ß√£o de parte da floresta amaz√īnica.

Por fim, nosso comportamento depende tamb√©m do contexto social e cultural no qual estamos inseridos. Tendemos a fazer aquilo que acreditamos que ‚Äúos outros‚ÄĚ est√£o fazendo, principalmente se entre os outros estiverem membros influentes e respeitados da comunidade. O produtor rural conclui que ‚Äúse todo mundo desmata, ent√£o desmatar √© o certo, e eu tamb√©m vou desmatar‚ÄĚ. Al√©m disso, fazemos aquilo que julgamos ser socialmente desej√°vel e nos abstemos de fazer aquilo que nos parece socialmente reprov√°vel. Propriet√°rios rurais da Costa Rica que reservaram parte de suas terras como √°reas protegidas informaram que sua principal motiva√ß√£o para proteger a floresta n√£o era de ordem legal ou econ√īmica, mas social: eles acreditavam que a iniciativa politicamente correta lhes traria prest√≠gio! √Ä medida que a sociedade brasileira se torna mais ambientalmente consciente, o reconhecimento daqueles que participam do esfor√ßo organizado para preservar recursos biol√≥gicos amea√ßados cresce de forma consider√°vel, especialmente quando se trata de um lugar mundialmente conhecida como a Amaz√īnia.

A moderniza√ß√£o da nossa sociedade √© acompanhada tamb√©m por uma mudan√ßa de valores em rela√ß√£o √† natureza ‚Äď de valores predominantemente utilit√°rios para valores mutual√≠sticos ‚Äď de modo que as florestas ganham import√Ęncia como recurso tur√≠stico ou simplesmente por seu valor intr√≠nsico. A floresta vista pejorativamente como ‚Äúmato‚ÄĚ ganha a imagem de um lugar importante, atraente, que merece ser visitado e cuidado. Na sociedade p√≥s-industrial, o horizonte √©tico √© expandido e considera√ß√Ķes morais se aplicam cada vez mais √† maneira como nos comportamos diante das florestas tamb√©m: explor√°-las de forma insustent√°vel se torna algo imoral.

Como melhorar a relação

Em suma, o comportamento humano em rela√ß√£o √†s florestas √© influenciado por fatores gen√©ticos, pessoais, sociais e culturais. Embora essa influ√™ncia seja eventualmente fraca e nem sempre decisiva, ela n√£o deveria ser ignorada nem ofuscada pelo poder das imposi√ß√Ķes legais e econ√īmicas. Em vista da dificuldade de se fazer cumprir a lei nas regi√Ķes mais remotas do pa√≠s, e da limita√ß√£o das abordagens econ√īmicas para tornar a floresta mais rent√°vel em p√© do que derrubada, as estrat√©gias para a conserva√ß√£o das florestas no Brasil deveriam incluir ainda as dimens√Ķes humanas da rela√ß√£o entre o brasileiro e as florestas.

Devemos examinar em que casos √© poss√≠vel e pertinente influenciar os fatores pessoais, sociais e culturais, e mobiliz√°-los de modo a complementar e amplificar os efeitos dos fatores legais e materiais. Os fatores pessoais - conhecimentos, cren√ßas, sentimentos e habilidades - que moldam a maneira como tratamos as florestas podem ser influenciados por interven√ß√Ķes de educa√ß√£o e comunica√ß√£o. O contexto social que incentiva o brasileiro - agricultor, empres√°rio ou pol√≠tico - a destruir a floresta ou proteg√™-la, pode ser devidamente mudado por ferramentas de marketing social; por meio de ‚Äėmodelos‚Äô (membros influentes da comunidade que d√£o o bom exemplo a ser imitado); pela comunica√ß√£o feita atrav√©s de institui√ß√Ķes locais respeitadas e redes sociais informais, de modo que as mensagens conservacionistas sejam disseminadas ‚Äėhorizontalmente‚Äô e n√£o de cima para baixo; pela recompensa social, incluindo premia√ß√Ķes (incentivo positivo em lugar de negativo); e pelo envolvimento comunit√°rio, com planejamento e manejo participativos.

O futuro sustent√°vel das florestas vai exigir, no entanto, a ado√ß√£o de um novo paradigma cultural no qual as motiva√ß√Ķes para a conserva√ß√£o n√£o sejam apenas legais, econ√īmicas e ecol√≥gicas, mas tamb√©m afetivas, est√©ticas, culturais, espirituais e √©ticas. Esse novo paradigma ainda dever√° ser devidamente desenvolvido e aplicado e, portanto, depender√° da disposi√ß√£o das pr√≥ximas gera√ß√Ķes em mudar a maneira como se relacionam com a floresta. Precisamos incluir as crian√ßas e jovens brasileiros nesse esfor√ßo, e desenvolver abordagens efetivas para transform√°-los em cidad√£os que se relacionam de forma respons√°vel com as florestas. Iniciativas com esse objetivo j√° existem.

Um exemplo deles √© a Escola da Amaz√īnia, que h√° 8 anos vem trazendo para as escolas de Alta Floresta, na fronteira de desmatamento, a tem√°tica da conserva√ß√£o das floresta, usando duas esp√©cies excepcionalmente carism√°ticas da regi√£o ‚Äď o macaca-aranha-da-cara-branca e a on√ßa-pintada ‚Äď para capturar a aten√ß√£o e a curiosidade de alunos e educadores, criando e fortalecendo o v√≠nculo afetivo das crian√ßas com a floresta, despertando nos jovens o interesse por alternativas econ√īmicas mais sustent√°veis que a pecu√°ria, e levando jovens dos grandes centros urbanos para conhecer de perto a realidade da regi√£o. Leis e dinheiro sozinhos podem trazer benef√≠cios imediatos para as florestas, mas a longo prazo as perspectivas s√£o melhores se abordagens focadas no indiv√≠duo, incluindo o jovem e a crian√ßa, forem tamb√©m incorporadas. √Č assim que teremos mais chance de que o Brasil continue sendo, por muito tempo, o pa√≠s das florestas.

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